Jornalismo: hora de comemorar ou de refletir?

Antes de começarmos, duas breves observações.

Meus dois leitores sabem que, na imensa maioria das vezes, o blog aparece para levar notícia. Falar sobre jornalismo em si não houve muitas ocasiões. Agora, será uma delas. Acredito que o momento merece.

O ponto 2 é que a conclusão do leitor sobre esse texto pode ser simplificada antes mesmo da leitura propriamente dita. O autor é um jornalista que foi saído recentemente de uma grande redação e está aqui desabafando um pouco de suas mágoas. Pode ser uma conclusão simplista. Mas, enfim, há de se respeitá-la. Se já é esse o conceito inicial, alerto logo que não é preciso continuar até o fim. Aviso que pode parar por aqui e evita-se perda de tempo.

Dito isso, para quem fica, sigamos.

Esta semana, mais precisamente às 19h30m do dia 17 de maio, o jornalismo viveu um momento classificado por muitos como histórico. Saber se isso é 100% correto, só os livros de História vão dizer. Mas o termo não me parece nada exagerado.

As horas que se seguiram após a divulgação do furo do colunista Lauro Jardim no site do jornal O Globo sobre o ex (ops, dei uma de Bonner, foi mal), sobre o presidente Michel Temer foram de êxtase para o jornalismo. Foi hora de comemorar a importância de uma profissão tão castigada nos últimos anos, celebrar o orgulho que esse profissional carrega às vezes escondido no peito. Foi o dia da redenção.

Foi um momento em que cabia desabafar: “Olha aí, essa é a Globo (adoro que por mais que o jornal tente convencer que é O, não adianta, vira sempre A) que você petista tanto critica??? Chupa essa mortadela!!! Fala agora, vai??? Dá crédito para a platinada!! Quero ver!!!”.

Na disseminação de ódio que se perpetua pelas redes sociais, é quase certo que você tenha lido algo do tipo nos últimos dias.

Mas enfim, esqueçamos a raiva e vamos nos concentrar nas comemorações. Nos últimos dois dias, em conversas com pessoas cujas opiniões respeito muito, comecei a ter essa discussão. É só o momento de comemorar o jornalismo? Na minha humilde opinião – e sabendo que o que nos falta hoje em dia é cada vez mais tempo para pensar -, não é hora só disso. Cabe refletir.

Um texto que começou a circular hoje entre jornalistas, de um diretor da gigante da assessoria de imprensa FSB, vibra sobre o quanto o furo histórico representa em termos do negócio jornalismo. Uma notícia em meio digital que catapultou o site do Globo possivelmente a níveis jamais vistos. Talvez o próprio jornal não tivesse se preparado o suficiente, já que não faltaram vezes em que a página saiu do ar.

Ou seja, ainda é preciso ver se isso efetivamente irá, como alguns gostam de dizer, “monetizar” o jornal, que vem, como milhares de outras empresas, sofrendo com a crise. Mas, ao que tudo indica, para o “negócio jornalismo” foi um gol. Decisivo? Difícil ainda saber. Mas um gol importante.

O que queria trazer aqui – se meus dois leitores já não diminuíram para um a essa altura – é um outro lado. Em termos de orgulho da profissão, da investigação jornalística, o furo desta semana é só para comemorarmos? Volto a dizer: acredito servir mais para reflexões. Professores terão prato cheio, mas é bom que essas discussões não fiquem só na academia.

Do ponto de vista prático, o que vimos foi mais um vazamento de partes de uma delação premiada, que desta vez incluía provas mais consistentes, graças a uma apuração extra que envolveu as autoridades do caso e o próprio delator. Ao jornalismo, coube reproduzir e empacotar o material recebido. De forma muito bem feita por sinal. E ponto.

Há um mérito indiscutível de o colunista ter antecipado, ter tido em mãos algo que pode mudar os rumos do país. Com certeza, é de uma satisfação imensa para o próprio jornalista e de consequências muito positivas para a empresa onde trabalha. E de dar inveja a qualquer outro colega.

Não dá para não pensar, porém, no tamanho do poder que nosso país teve esta semana em mãos de um colunista, em mãos de um jornal. O próprio veículo e um concorrente noticiaram que o delator pode ter faturado milhões com transações de câmbio horas antes de a notícia ter sido veiculada.

Mas o leitor pode se questionar: o conteúdo das delações iria ser divulgado de qualquer jeito, certo? Sim, mas um impacto de um vazamento através de uma única fonte, cujo texto já se afirmava uma bomba, pode ser muito diferente de uma divulgação ampla e universal. Há que se refletir sobre isso.

O que quero dizer é que me empolgo pouco com o furo. Ao menos, especificamente neste caso. Pensando não só em termos da nossa profissão, mas no país que queremos daqui para a frente, precisamos lutar é por mais e mais transparência. Só dessa forma é que ficará mais difícil para o sistema corrupto se reorganizar após ser sacudido.

É muito mais importante para o país e, por que não, para a própria profissão a divulgação de íntegras de delações, que mais e mais documentos estejam públicos do que propriamente os vazamentos seletivos. Que deixam o leitor feliz quando não envolvem o “time” para que ele torce. E revoltado, quando envolvem o seu lado da torcida.

O papel da fonte é e será sempre inquestionável. Mas acredito ser muito mais relevante quando serve de pontos de partida para investigações. Quando ela antecipa, de forma seletiva, documentos, gravações, que terão um impacto gigantesco, é preciso ao menos olhar tudo isso com mais reflexão e cautela.

Para o negócio jornalístico da empresa, o que aconteceu às 19h30m do dia 17 definitivamente pode ser algo a ser aplaudido de pé. Para o jornalismo em si, prefiro usar o furo para a reflexão. O que não quer dizer que seja errado comemorar.

Sigamos. Comemorando e refletindo.

 

 

Anúncios

Tio de presidente interina do TCE era de gabinete de conselheiro preso

Presidente interina do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), após seus outros seis colegas de função serem afastados graças a acusações de corrupção, a conselheira Marianna Montebello Willeman tinha até bem pouco tempo atrás um parente bastante próximo com um bom cargo comissionado no órgão.

O advogado Cid Vianna Benjamin, tio de Marianna, era, até o dia 25 de abril passado, assessor no gabinete do conselheiro Domingos Brazão. Nesta data, Cid pediu para ser exonerado do cargo. Seu salário, na folha de pagamento de março, por exemplo, havia sido R$ 13,4 mil brutos.

Brazão foi preso no dia 29 de março durante a Operação Quinto do Ouro, que apura um esquema de repasse de propina de empreiteiras a conselheiros. Com ele, também foram para a cadeia outros quatro colegas: Aloysio Neves, José Gomes Graciosa, Marco Antônio Alencar e José Maurício Nolasco. Jonas Lopes de Carvalho, que delatou o suposto esquema de propina no tribunal, já havia se licenciado da Corte no ano passado.

No dia 7 de abril, os cinco conselheiros presos foram soltos, mas continuam afastados do TCE-RJ. Com isso, o tribunal funciona com auditores substitutos, sob a presidência de Marianna, que originalmente é corregedora do órgão.

O blog perguntou à assessoria de imprensa de Marianna se o emprego comissionado do tio na Corte não poderia ser caracterizado como nepotismo. Como resposta, foi enviado um histórico dizendo que Cid Vianna Benjamin ingressou no TCE-RJ em 31 de janeiro de 2008. A conselheira, por sua vez, só assumiu o cargo no tribunal em meados de 2015.

Ok, mas Cid não é só tio de Marianna. Ele é também irmão do presidente do Tribunal de Contas do Município do Rio (TCM-RJ), Thiers Montebello. Então segue a história.

Um levantamento feito pelo blog em diários oficiais revela que, até o dia 30 de julho de 2008, quando pediu exoneração, Cid Vianna tinha um cargo de assessor-chefe no TCM, órgão que já naquela época era comandado pelo irmão. Em agosto daquele ano, uma súmula do STF barrou o nepotismo.

Ou seja, fica a dúvida: será que o advogado tinha, ao mesmo tempo, cargos no TCE e no TCM entre janeiro e julho de 2008? Mistério.

A assessoria de Thiers Montebello informou que “ele não teve nenhuma influência na ida do dr. Cid Montebello para o TCE”.

A nota diz ainda que “o dr. Cid esta lá (no TCE) há cerca de nove anos, é um advogado com 48 anos de formado e sempre muito atuante. Antes de ir para o TCE, foi chefe do Departamento Jurídico da Eletrobras por muitos anos. Ele foi para o tribunal então a convite do conselheiro Aluísio Gama”.

A assessoria de Thiers também disse que “com a assunção da conselheira Marianna à presidência interina do TCE,  Dr. Cid,  para não causar desconforto à sobrinha, achou por bem, espontaneamente e também sem a influência do Dr. Thiers, pedir a exoneração do cargo”.
Então, é vida que segue.

Pastor vira ouvidor da Secretaria de Conservação da prefeitura

Nada contra a crença de cada um, mas não custa informar. A prefeitura do Rio tem mais um evangélico contemplado com um cargo de destaque a partir desta sexta-feira. Foi nomeado como ouvidor da Secretaria de Conservação e Meio Ambiente o pastor Uziel Rodrigues de Lima. No início do ano, ele já havia sido nomeado como subgerente de contratos, cargo que lhe rendia pouco mais de R$ 5 mil mensais. Agora, ganhou um “up grade”.

Uziel é reverendo da Igreja Presbiteriana de Manguinhos e já tinha recebido nos últimos anos duas moções de louvor do vereador João Mendes de Jesus (PRB), bispo da Igreja Universal.

Na campanha do secretário de Conservação e Meio Ambiente, Rubens Teixeira, também evangélico, para vereador, Uziel fez a sua contribuição, de R$ 500. Teixeira se candidatou pelo PMN e teve 4.485 votos.

Outros três doadores da campanha do secretário também ganharam cargos na prefeitura: Ailton Mariano da Silva (subsecretário); Rogério dos Santos Barreto (subgerente); e Cesar Renato Ferreira Peixoto (coordenador-geral).

Oremos para que façam todos um bom trabalho.

Crivella fixa em R$ 24 mil teto de comissionados

Não que isso seja um mau salário, convenhamos, mas depois de os altos vencimentos na prefeitura serem divulgados, o prefeito Marcelo Crivella resolveu impor um teto aos cargos comissionados (aqueles sem concurso público): R$ 24 mil.

A medida foi tomada através de decreto, publicado nesta sexta-feira. O valor fica um pouco abaixo do teto estabelecido em lei municipal, de R$ 27,4 mil. O texto afirma que mesmo gratificações extras e jetons entrarão neste cálculo de limite.

Já os cargos efetivos terão que respeitar o valor do maior salário no país, de R$ 33,7 mil, dos ministros do STF. E também serão levadas em conta as gratificações extras.

Os altos salários vinham ocorrendo exatamente graças a esses benefícios “por fora” que são usados para burlar a legislação.

Vitória da transparência. E continuemos de olho.

TCE-RJ tem 27 motoristas ganhando acima de R$ 20 mil por mês

Antes de começar esse post, é preciso ressaltar que, no momento atual do estado, não cabe absolutamente qualquer crítica ao servidor público. Os casos que relatarei são, na minha humilde opinião, apenas mais um capítulo de sucessivos erros administrativos, que compõem nosso quadro de crise atual. Dito isso, sigamos.

Nas últimas duas semanas, com bastante dificuldade, o blog pesquisou os dados da folha de pagamento do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). Esta Corte, para quem não lembra, é aquela que está sem seis de seus sete conselheiros afastados por corrupção. Cinco deles até pouco tempo estavam atrás das grades e responderão a processo decorrente da Operação Quinto do Ouro.

Quando falo em dificuldade, não é à toa. Para chegar à folha do TCE, é preciso achar num pé de página um link de “clique aqui”. Você faz todo um cadastro e te mandam um endereço que fica disponível por 24 horas na internet. Não há uma tabela geral, nem é possível fazer buscas por nomes. É preciso ir clicando de um a um. Tudo num belo desacordo com as regras da Lei de Acesso à Informação. Desculpem a introdução, mas uma das principais lutas desse humilde blogueiro é por transparência.

Pois bem, o levantamento resultou em algumas constatações que irei expor ao longo dos próximos dias. Começaremos por aqui: entre os servidores do TCE-RJ, há 27 funcionários identificados como “motorista/segurança”, que ganham acima de R$ 20 mil mensais brutos. Nada contra as carreiras, mas é difícil não se espantar. Ver algum motorista ou segurança ganhando mais do que R$ 5 mil é coisa raríssima. Mesmo com os encargos, é algo que parece completamente fora da realidade.

Entre esses motoristas/seguranças, o salário mais alto bruto foi de R$ 32.112. Os dados levantados pelo blog são referentes ao mês de março passado. E para chegar a esses 27, foram levados em conta apenas aqueles que superaram os R$ 20 mil brutos. Havia outros com salários acima de R$ 18 mil, R$ 19 mil…

Mas a história não termina aí. Além dos motoristas, o TCE-RJ tem nada menos do 150 auxiliares administrativos que ganham acima de R$ 20 mil mensais. Também respeitando a profissão, é raro encontrar no mercado profissionais ganhando acima de R$ 5 mil neste tipo de função.

Entre os auxiliares administrativos, o maior vencimento registrado em março passado foi de R$ 40.368, o que resultou para o servidor num valor líquido de R$ 29.090.

Somados apenas auxiliares administrativos e motoristas que ganham acima de R$ 20 mil, o TCE-RJ tinha na folha de março pagamentos que somaram R$ 4,2 milhões. Se isso se mantiver estável ao longo de um ano, estamos falando de cerca de R$ 50,4 milhões.

Perguntas não respondidas 

O mais triste dessa história foi que o blog mandou uma série de perguntas ao TCE-RJ para tentar esclarecer melhor que funções essas pessoas exercem no órgão. A resposta foi a seguinte: “O tribunal não vai se manifestar sobre as questões levantadas”.

Abaixo, informo aos meus dois leitores a lista de perguntas que enviei. Quem sabe um dia teremos as respostas.

Sobre os “motoristas-seguranças”:

  • Queria saber quando e como foi feita a admissão desses profissionais e se tratam-se de servidores de nível médio ou foi exigido nível superior.
  • Eles são seguranças ou motoristas? Ou os dois?
  • No mercado em geral, o salário de um desses profissionais costuma chegar no máximo a R$ 5 mil, com raríssimas exceções. Por que esses servidores recebem no TCE-RJ salários tão altos?

Sobre os auxiliares administrativos:

  • Queria saber quando e como foi feita a admissão deles, e se são profissionais de nível médio ou superior.
  • Por que eles têm uma remuneração tão alta no TCE?

Bem, por hoje é isso.

Filha evangélica de Jorginho Guinle é a nova aquisição do governo Crivella

Em pouco mais de quatro meses de governo, o prefeito Marcelo Crivella caprichou nas curiosas nomeações. Teve de filho na Casa Civil a merendeira na Secretaria de Transportes e por aí vai.

Nesta segunda-feira, foi a vez de Georgiana Guinle ganhar seu cargo no gabinete do prefeito. Trabalhando atualmente com comunicação, ela já tentou outras áreas no passado, como a de atriz. Mas é mais conhecida por ser filha do playboy Jorginho Guinle, que morreu em 2004.

Evangélica, Georgiana é unha e carne com a mulher de Crivella, Sylvia Jane. Completa a patota a atriz e apresentadora Eliana Ovalle, que, é claro também já ganhou um cargo na prefeitura.

Afinal, não dá para deixar as amigas fora dessa, correto?

Na gestão de hospital da prefeitura, OS contratou firma de empresário preso com Sérgio Côrtes

Não foi só através de contratos diretos com a Secretaria estadual de Saúde ou com o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into) que o empresário Miguel Iskin, preso pela Operação Fatura Exposta no mês passado, recebeu dinheiro público nos últimos tempos no Rio.
Nada de irregular ainda foi apontado até agora nessa relação, nem há qualquer citação nas investigações do Ministério Público Federal (MPF), mas o fato é que ao menos uma Organização Social (OS), o Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (Iabas), vem usando os serviços de Iskin.
A relação acontece no contrato que o Iabas tem com a prefeitura do Rio para a administração do Hospital Rocha Faria, em Campo Grande, na Zona Oeste. A unidade foi assumida pela OS em agosto do ano passado e, desde então, já repassou R$ 741,4 mil à empresa Imagio Diagnóstico Avançado. Foram três pagamentos, o último agora no mês de janeiro.
De acordo com o site da Receita Federal, a Imagio pertence a Miguel Iskin e a outra empresa sua, a Sheriff Participações. O endereço da firma, no Humaitá, é o mesmo da Oscar Iskin e Cia, foco principal das investigações decorrentes da Operação Fatura Exposta.
Como estão públicos apenas contratos do início de 2016 para cá, é possível que mais recursos do Iabas tenham ido parar nos cofres da empresa de Miguel Iskin.
É bom lembrar que essa OS vem sendo investigada pelo Ministério Público Estadual desde 2015 no Rio por problemas na gestão de unidades de saúde. Em São Paulo, o Iabas também passa por problemas e é alvo de investigação do MP local.

Opinião: estou preocupado com as contas de Crivella

Quem acompanha um pouco o que acontece em torno da prefeitura do Rio viu nos últimos dias as discussões sobre as contas do município. Foi o atual mandatário falando uma coisa, o antigo falando outra… Deu até treta no Face. Só faltou se xingarem de bobo, feio e cara de melão.

Mas vou confessar aos meus dois leitores. Eu ando mesmo é preocupado com as contas domésticas de Marcelo Crivella. Ok, eu devia era me preocupar com a minha vida. Mas poxa, a gente já tem um vice-prefeito que deve uma grana violenta de IPTU. Fico tenso com a saúde financeira do prefeito também.

Explico. Pela declaração de bens que deu ano passado à Justiça Eleitoral, Crivella é um cara até que humilde. Diria até tipo gente como a gente, como uma boa galera de classe média por aí. Tinha apenas o apartamento onde mora, na Península, na Barra, de R$ 634,7 mil, e um CDB no Banco do Brasil, de R$ 66,8 mil.

E é por essas e outras que eu fico preocupado. Desde que ganhou a eleição, nosso prefeito já fez duas viagens internacionais pessoais. E não deve ter sido muito barato.

Em novembro, foi a Israel com a mulher e mais um grupo. Como o voo foi de executiva, se pagou as duas passagens pelo menos, só aí já foram uns 20 contos. Mais hotel por lá, passeios… Acho que por menos de 25 mil Temers não saiu.

Por agora, já como prefeito, Crivella foi para a África do Sul. Coisa pessoal também, ele garantiu. Com mulher, filho e afins. Digamos que só tenha arcado com a parte dele e da esposa. Acho que menos de dez contos não foi.

Fico ainda mais preocupado porque as economias estão acabando e, num gesto louvável, Crivella doou os três salários que receberia na prefeitura até agora, de R$ 18 mil cada, para uma menina com uma doença grave.  

Agora, é acompanhar com atenção o que vai rolar daqui para a frente e torcer para que nosso prefeito engorde o cofrinho e não corra o risco de passar sufoco com o carnê do IPTU como seu vice.

Caso se comporte direitinho com suas finanças, quem sabe Crivella consiga juntar uma grana para passar um período sabático em Nova York quando terminar sua gestão.

Para dicas, é só mandar um whatts para seu antecessor Eduardo Paes, que, como ele mesmo diz, sabe bem: os números não mentem.

Adriana Ancelmo reclamava de joias da H.Stern e trocou brincos dados por Cabral

Como a riqueza Adriana Ancelmo está de volta às manchetes nesta quinta-feira, graças a sua viagem para Curitiba para depor ao juiz Sérgio Moro, resolvi lembrar um pouco dos tempos de glamour da moça. Uma coisa é preciso dizer: ela queria gastar com qualidade o dinheiro dela (ou o meu, o seu?) com joias.

E-mails encaminhados pela diretora da H. Stern Maria Luiza Trotta, que constam num dos processos decorrentes da Operação Calicute, mostram uma ex-primeira-dama muito exigente. Durante a negociação da compra de um par de brincos, funcionárias da joalheria chegam a comentar sobre a impaciência de Adriana.

Num e-mail de agosto de 2009, uma funcionária da H. Stern encaminha a colegas a mensagem da ex-primeira-dama demonstrando bastante irritação com o uso de um modelo de pedras chamado de SI:

“SI vcs não deveriam nem ter!! Nem as piores do mercado trabalham mais com essa classificação!! É impressionante como uma loja como essa não tenha uma gama maior de opções”.

Os e-mails também mostram que nem sempre os presentes do marido Sérgio Cabral alcançavam o coração de Adriana Ancelmo. Numa mensagem de junho de 2012, Maria Luiza Trotta diz a um outro funcionário da H. Stern:

“Ela não gostou do brinco que ele escolheu. Hoje, eu fui no escritório dela com a Renata e trocamos. Diferença de R$ 150 mil. Teremos que mudar o modelo, vou fazer dois desenhos para ela aprovar, mas as pedras são melhores”.

Em outra mensagem da mesma época, Trotta relata mais detalhes do drama de Cabral na compra de um mimo para a mulher:

“Ele comprou um par de brincos de TY nv 155.000. Ficou de comprar o anel de nv 500.000 no aniversário dela em junho. Segundo a Vera, ele estava tenso e sem entusiasmo”.

Fora as siglas que não consegui entender, basicamente o que se diz é que o ex-governador estava desanimado ao comprar um anel de 500 contos para a mulher.

Apesar de Adriana ser bastante crítica com as joias, a diretora Maria Luiz Trotta também revelou e-mails com vendas de sucesso. Numa das mensagens, ela comemora que a ex-primeira-dama gostou de uma joia de “turmalinas paraíbas”, que seria levada para o marido. Nesta mesma visita, há o relato de uma compra de um “brinco de rubelitas” por R$ 28 mil em espécie.

“Lancei a venda em meu nome como vendedora e ‘cliente não quis fornecer dados’. Não comentei com ninguém”, afirmou a diretora da H.Stern, num e-mail interno.

Conforme já havia sido revelado por vários veículos de imprensa no mês passado, Maria Luiz Trotta, que está colaborando com as investigações do Ministério Público Federal, afirmou ter vendido R$ 6 milhões em joias para Adriana Ancelmo.

Sérgio Côrtes está preso. E será que essa história termina por aí?

Ok, vivemos uma sequência de escândalos como nunca antes na história deste país, mas é bom lembrar: este mês, foi preso o ex-secretário estadual de Saúde Sérgio Côrtes. E o delator dele, seu subsecretário executivo durante o governo Sérgio Cabral, Cesar Romero Vianna Júnior, serve de inspiração para algumas palavras que virão a seguir.

Permitam-me lembrar que, além de Côrtes, também foram presos na operação “Fatura Exposta” dois empresários ligados à empresa Oscar Iskin, uma distribuidora de material médico: Miguel Iskin e Gustavo Estellita Cavalcanti Pessoa. E é isso. Deve fazer um tempo que você leitor não ouviu mais falar dessa história.

Passada a introdução, vou dar uma guinada nesse texto e voltar no passado uns dois anos, dois anos e pouco. Espero que consigam seguir comigo. Ainda trabalhava na redação de um grande jornal, quando resolvi vender uma reportagem sobre Cesar Vianna Junior, o delator de Sérgio Côrtes. Expliquei a história e tive a resposta da editora: “Isso é apenas uma ilação. Não vejo problema nisso. Se você descobrir que alguém está investigando, o Ministério Público, voltamos a conversar”. Faz parte do jogo. Era uma opinião que tinha de ser respeitada.

Pois bem, o ano agora é 2017, Cesar Romero delatou Côrtes, que foi preso. Então, queria compartilhar com meus dois leitores a minha ilação. Depois de deixar o governo, já envolvido em suspeitas, Romero tornou-se advogado de uma empresa chamada AVX Sistema de Gestão Integrada e Projetos.

A AVX é uma firma que tinha vários contratos com a Secretaria estadual de Saúde, local onde Romero trabalhou e comandou várias licitações. Impedida de participar de concorrências públicas até o meio deste ano por ter entrado no Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas, ela pertence a Affonso Carlos Villar Junior.

Junior é filho de Affonso Carlos Villar, dono da empresa Rufolo, que conseguiu alguns bons contratos com a Secretaria estadual de Saúde, quando Cesar Romero dava as cartas por lá. O delator de Côrtes chegou inclusive a ser condenado pelo TCE-RJ no ano passado a pagar uma multa de R$ 15 mil por irregularidade num contrato exatamente com a Rufolo.

Ou seja, resumindo: Romero passou a advogar para um grupo com o qual ele teve relação direta – e com suspeitas de irregularidades – na época em que atuava como servidor público. É ilegal? Não. É imoral? Creio que sim. Acho que isso deve ser exposto? Sim.

Antes de concluir, faço mais uma lembrança para quem ainda não se familiarizou com a Rufolo. Uma das representantes da empresa apareceu em 2012, no Fantástico, da TV Globo, numa sensacional reportagem de Eduardo Faustini, oferecendo propina a um repórter que se apresentou como representante de um órgão público que queria fazer uma licitação. Tudo foi gravado.

O que queria deixar depois desse texto todo é uma outra lembrança: apenas Côrtes e dois empresários estão presos pelos esquemas na Secretaria de Saúde, na primeira gestão de Sérgio Cabral. Apesar da relação muito próxima entre Cesar Romero, a Rufolo e a AVX não vi nada ainda sobre essas empresas por aí.

Talvez não interesse a Romero delatar nada relacionado a essas duas firmas. Talvez não haja nada. Da minha parte, fiz aqui minhas ilações. Quem sabe o Ministério Público se interesse em investigar algo por aí. Afinal, eles podem nos pautar, mas podemos tentar pautá-los também, correto?